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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Sim... eu salvo RATINHOS (Parte I)

Resumo da definição de RATO segundo WIKIPÉDIA: “O Rato é uma designação comum para diversos pequenos mamíferos pertencentes à ordem dos roedores e em alguns contextos são considerados pragas, além de ser um vetor para diversas doenças. Os ratos domésticos possuem comportamentos furtivos, onde podem invadir casas e despensas de comida. São os principais animais usados para testes em laboratórios”.

Resumo de definição de RATO segundo EU MESMA: “O Rato é um animalzinho muito inteligente, veloz, com olhinhos brilhantes e que parece estar sempre com o coraçãozinho batendo ligeiramente assustado. Poucos são amados, na maioria das vezes os seres humanos os desprezam por nojo, medo e são explorados inescrupulosamente, sendo submetidos a torturas para “estudos” em laboratórios”.
 Sempre fui uma grande defensora de toda forma de vida e isso é claro inclui os Ratos. Esses bichinhos sempre fizeram com que eu sentisse grande peninha deles, sei que muitos vão achar ridículo, eu hoje sendo adulta, continuar pensando assim, mas não me importo MESMO com o julgamento dos outros, em se tratando de animais meu coração continua pensando igualzinho de quando era pequena. Sofro choro, brigo por eles, não da mesma forma que fazia quando era criança, pois agora sei que posso defender os bichos de forma muito maior e mais intensa, procurando sempre conscientizar as pessoas com argumentos e atitudes.
E é pensando nisso que resolvi escrever esta historia, contando como vejo esses pequenos mamíferos, talvez assim as pessoas entendam, porque sinto tanto em saber quanto sofre esta espécie de vida, que como qualquer outra também tem sentimentos, medo, dor...
Desde pequena ouvia as pessoas dizendo como os ratos eram nojentos e as doenças que podiam “passar” pra gente, mas eu ficava pensando: "Como um bichinho tão bonitinho pode passar doenças?" Afinal a gente mal os via, pois era só ouvirem um barulhinho que já se escondiam amedrontados.
Era muito comum eles aparecerem no nosso paiol e meu pai, apesar de ter pena de bichinhos, ratos ele não se importava em matar, só não usava veneno porque tínhamos sempre gatinhos em casa e principalmente porque sabia que se eu conseguisse, com certeza pegaria  um ratinho na mão...
Infelizmente sua atitude me deixava muito triste e lá ia eu todos os dias, espiar todos os cantinhos do paiol para desarmar as ratoeiras e nem sei quantas vezes ouvi bronca, quando meu pai achava o cabo da vassoura, que eu colocava dentro da barrica de milho, para que os ratinhos escalassem e conseguissem fugir antes do meu pai os encontrar, (isso acontecia quando alguém esquecia a barrica aberta, eles entravam para comer, mas depois não conseguiam mais sair). Confesso que os sermões, apesar de me deixarem deprimida por outro lado valiam a pena, porque sabia que tinha salvado mais um.
Mas uma das minhas maiores lembranças e tristezas que tive com esses pequenos roedores, foi um casalzinho de camundongos bem pequenos e fofinhos.
Fizeram o ninho deles embaixo da nossa casa perto da escada e de vez em quando eu os via sair correndo pra pegar os farelinhos de pão, aonde minha mãe batia a toalha da mesa. Resolvi então alimenta-los e sempre que podia, escondido da minha mãe, é claro, eu colocava perto do buraquinho entre a tabua e a terra pedacinhos de queijo, salame ou pão e era só o tempo dos malandrinhos farejarem, que com todo o cuidado vinham espiar, quando viam que não tinha perigo, davam uma corridinha,  pegavam a comida e sumiam de volta pro ninho, eu achava isso o máximo.
Alimentava-os todos os dias quase sempre no mesmo horário, ate que certa vez, pra minha surpresa e alegria eles perderam o medo de mim e passaram a comer na minha mão.
Estavam tão acostumados a ouvir e reconhecer meus passos, que era só eu me abaixar e estender a mão, eles corriam, subiam nela, deixavam eu fazer um carinho nas suas cabecinhas e voltavam felizes pra debaixo da casa comer os petisquinhos.
Eu ficava tão feliz que nem acreditava, tinha ganhado a confiança daqueles pequeninos e podia matar minha curiosidade de vê-los de perto, poder analisar seus olhinhos, patinhas e sentir o calorzinho de seus corpinhos na palma da minha mão, às vezes ate sentia o pulsar de seus coraçõezinhos.
Ficava tão extasiada, que pra ninguém ver eu rir alto de contentamento, corria atras da casa, pulava batendo palmas, dava cambalhotas na grama, deitava olhando o céu e pensava: "Como que podia no mundo existir tantas espécies de animais tão lindos!" E na minha inocência acreditava, com toda força do meu coração, que um dia seria amiga também de leões, elefantes, girafas, gorilas enfim de todos os animais do planeta.
Inspirada nos filmes infantis, fiz com uma pedra amarela o desenho na tabua parecendo toca de ratinho e em cima escrevi Lar doce Lar. É obvio que aquilo chamou a atenção da minha mãe, coisa que não pensei no momento.
Ela queria saber por que fiz aquilo, com medo que descobrisse, inventei uma desculpa qualquer que é claro não colou, porque de burra a D. Muri nunca teve nada e passou a ficar de olho em mim.
Ate que um dia me pegou dando queijo pra eles, fez um escândalo, me mandou lavar as mãos com sabão, (no tanque, na pia da cozinha nem por decreto) porque segundo seu sermão: “Era só o que faltava começar a pegar ratos na mão, não chegava andar por aí com sapos, agora ratos também? Será que eu não sabia que eles tem peste? E se eles te morderem pode ate morrer... ah... mas deixa teu pai saber disso...”
Fui correndo lavar as mãos, não por medo das “pestes”, mas de apanhar dela e é claro corri atrás da casa chorar escondido... sabia do amor que meu pai tinha por mim, mas também sabia do conceito formado que ele tinha sobre os ratos. Como convence-lo a não matar meus amados e pequeninos TITO e TITA? (nome que havia dado pra aquele casalzinho simpático, que nunca cheguei a distinguir o macho da fêmea.
À noite quando meu pai chegou, minha mãe fez questão de contar tudo, inclusive que me viu com eles na mão. Meu pai ficou muito bravo e falou de todas as doenças que eu podia pegar da forma mais trágica possível, eu só chorava e pedia que por favor não matasse os coitadinhos, mas olhando nos lindos olhos azuis de meu pai, sabia que não adiantaria, pois pra ele ratos em casa jamais!!
Os dias foram passando e apesar de todo sermão que ouvi continuei (escondida) a tratar meus pequenos.
Nesta época eu estava com uns 7 ou 8 anos e dormia com minha irmã e certa noite acordei com uns barulhos estranhos, notei que ela não estava do meu lado, quando despertei totalmente, acendi a luz e percebi que o barulho vinha do quarto ao lado aonde era a nossa despensa... fui mais perto da parede e ouvi entre pancadas, pulos e gritinhos histéricos da minha mãe e da minha irmã, frases do tipo: “Olha, ele esta lá... sai que eu pego... credo, ele esta embaixo da cadeira... aiiii que nojo...”
Meu coração veio a boca, pois tive certeza que se tratava de uma caçada “familiar” a ratos, levantei e comecei a berrar, chorar e bater na porta da despensa que estava fechada.
Ouvi minha mãe dizer bem brava: “Vá dormir Mônica, não é nada”.
Afff... sei que me achavam estranha, mas surda e tapada eu nunca fui!!! E continuei berrando com toda a força, que não era pra matar meus ratinhos.
Alguns minutos depois (que pra mim foram séculos) meu pai abriu a porta, me pegou pela mão e foi sentar comigo na cozinha, tentando amenizar a chacina que tinham feito, mas como eu continuava histérica minha mãe curta e grossa falou: “Pode parar de chorar que não adianta, já matamos porque onde já se viu, vieram fazer o ninho dentro da caixa dos meus vidros de compotas vazios... e Angelo, amanhã quando você for trabalhar (nesta época meu pai era motorista do caminhão de lixo), pode levar tudo embora aqueles vidros e jogar no quinto dos infernos, malditos ratos nojentos”... e me dando aquela fuzilada continuou... “Viu no que deu você ficar tratando eles? Vieram parar dentro de casa... “bécs” que nojo, tô ate arrepiada...”
Tenho certeza que ela só não foi tomar banho pra se desinfetar por completo, porque era madrugada, (nesta época nosso chuveiro ficava numa casinha ao lado do paiol, ele era de latão e ficava suspenso por uma corda. 
Pra tomar banho precisava esquentar agua na panela e ir la fora, dava um trabalho danado, sem contar que o banho durava ate a agua acabar, o que acontecia em pouco tempo) mas vendo o quanto ela estava enojada, sei que faria isso assim que clareasse o dia!
E eu, só me restava ir correndo pro quarto e como diz o ditado: "chorar na cama que é lugar quente" e bem baixinho porque a minha irmã, que nunca parecia me entender, ficava me xingando, pois queria voltar a dormir!
Fiquei dias “de mal” com meu pai e cada vez que passava pelo buraquinho que eles moravam não podia conter as lagrimas, pensando em como tiveram coragem de matar o TITO e a TITA e seus bebezinhos que eu nem cheguei a ver e que somente fiquei sabendo da existência deles no outro dia, pois infelizmente ouvi esta historia muitas vezes, pois era chegar uma visita, minha mãe já contava a tragédia que tinha acontecido com sua caixa de vidros de compota e suas amigas tinham sempre a mesma reação... viravam a cara e faziam uma expressão de arrepio e diziam horrorizadas... “Credo que nojo”!!!
Mas apesar da minha decepção com tudo e todos, sabia que nada disso faria eu mudar de opinião, salvaria ratinhos (ou qualquer outro bichinho) sempre que precisassem de mim.
Outra historia com eles que nunca esqueço foi quando convenci (isso com uns 12 anos) a minha turma de amiguinhos de infância (que amo eles ate hoje) a salvar vários ratinhos que encontramos num canto do barracão do pai das minhas amigas gêmeas. Eles estavam quietinhos e encorujados, fiquei preocupada, se o pai delas os encontrassem, seriam facilmente mortos. Depois de muito pensar o que fazer com os coitadinhos, resolvemos leva-los, pra um terreno ali perto, onde era escavado cascalho, que carinhosamente, chamávamos aquele lugar de “nosso deserto”.
Felizes por acharmos que eles ficariam bem, deixamos eles lá acreditando que estariam salvos, mas para nossa tristeza, descobrimos depois que ficavam paradinhos daquele jeito porque estavam envenenados. Fiquei arrasada, todo nosso empenho não tinha adiantado nada, eles morreriam de qualquer forma.
Não demorou muito, minha mãe descobriu a minha “proeza” depois de uma visita na casa da mãe das minhas amiguinhas, o que foi motivo de uma grande discussão: “O que eu fiz de errado pra você não ter juízo nesta cabeça oca, fazer seus amigos pegarem ratos envenenados, já nem sei mais o que fazer, parece que quanto mais cresce mais louca fica...”
Bem, é claro que contou pro meu pai, que nessas horas me olhava com cara de bravo e ao mesmo tempo triste. E depois que a raiva dele passava, ele sempre dizia me olhando bem nos olhos... “Entendo que goste de bichos, mas nunca, minha filha, pode gostar mais deles do que de gente”!
Sabia que minha família, principalmente minha mãe e irmã, viam algo de muito errado e esquisito em mim, toda vez que me ouviam falar com cães, gatos, galos, gafanhotos ou seja lá o bichinho que eu encontrasse... confesso que também sempre me senti uma "estranha no ninho"... mas o que eu podia fazer? Meu amor e  piedade por eles era muito maior do qualquer outra coisa que pudesse "parecer ser o certo"...
Os anos passaram... e por coincidência num domingo desses, durante um almoço familiar, foi falado de ratos e  comentei que a minha próxima historia seria sobre eles e fui relembrar sobre o TITO e a TITA e fiz questão de reafirmar minha tristeza e indignação pela morte dos coitadinhos... hunf... nem me surpreendi quando minha mãe e irmã, mesmo já tendo passado décadas desde aquela fatídica noite, ainda fazem aquela cara de nojo e me olham com ar de: “Ai Mônica por favor me poupe...”
Imaginem então se naquela época, eu sendo apenas uma criança, não conseguia fazer eles entenderem o amor imenso que sentia por animais, se nem hoje que sou adulta, formada, casada e mãe muitas vezes não consigo?
Sim, porque atualmente continuo achando esses mamíferos fofinhos e me preocupo com o sofrimento deles.
Portanto é claro que a saga: EU SALVO RATINHOS continua... aguardem!!!

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